A Era Das Árvores

Escrito por Gwen. Publicado em Outros

Depois de Melkor ter destruído as duas grandes lâmpadas, Illuin e Ormal, o que provocou grande destruição na Terra Média, os Valar partiram para Aman, a mais Ocidental de todas as terras e estabeleceram o seu reino na região que passou a chamar-se Valinor. Fortificaram a sua nova morada, erguendo as montanhas Pelóri e construíram as suas mansões e a sua cidade, a Valmar de muitos sinos, com os seus portões dourados sempre abertos. Diante da porta Ocidental erguia-se um monte verde, Ezellohar, ou Corollairë, que Yavanna consagrou, e concentrando todo o seu pensamento em coisas que crescem na terra, entoou um canto de poder. Todos os Valar estavam reunidos para ouvir o seu canto e Nienna pensou em silêncio e regou a terra com lágrimas. E ao som do canto de Yavanna irromperam do monte dois delgados rebentos, que cresceram e tornaram-se belos, altos e floresceram; assim despertaram no mundo as Duas Árvores de Valinor, a mais famosa de todas as obras de Yavanna.

Uma tinha folhas de um verde-tenro e a sua orla era de refulgente ouro. As flores dos seus ramos em cachos de flama amarela despejava para o solo uma chuva dourada e da florescência dessa árvore irradiava calor e grande luz. Chamava-se Telperion, ou Silpion ou Ninquelóte. Essa era a mais velha e atingiu primeiro a máxima estatura e florescência, e a primeira hora em que brilhou não foi contada no número das horas pelos Valar, que lhe chamaram Hora Inicial e a partir dela contaram as Eras do seu reino em Valinor.

A outra tinha folhas verde escuras que da parte de baixo brilhavam como prata; e das suas flores caíam um orvalho de luz prateada: era a Laurelin, ou Malinalda, ou Culúrien, ou ainda muitos outros nomes em canções.

Em sete horas cada árvore atingia o seu apogeu e esmorecia de novo por completo; e cada uma reacordava uma hora antes de a outra cessar de brilhar. Por isso, em Valinor, havia duas vezes em cada dia uma hora de luz mais suave, em que os raios de ouro e prata se misturavam. Às seis horas Telperion cessava o seu tempo de floração e à duodécima hora Laurelin cessava o seu tempo de florescência. E cada dia dos Valar em Aman continha doze horas e terminava com o segundo misturar de luzes, em que Laurelin estava no seu declínio mas Telperion avançava para o apogeu. Mas a luz irradiada pelas árvores duravam muito tempo antes de ser absorvida pelos ares; e Varda guardava os orvalhos de Telperion e a chuva de Laurelin em grandes tinas, que lembravam lagos reluzentes. Assim começaram os dias de felicidade de Valinor e assim começou a contagem do tempo dessas Eras.

No entanto, a Terra Média permanecia sob a luz das estrelas, feitas por Varda: portanto, havia dois sistemas de tempo paralelos. Enquanto Valinor florescia sob a luz das Duas Árvores, a Terra Média permanecia nas Eras de Escuridão e das Estrelas, e Melkor rebustecia a sua força, reunia os seus demónios na sombra e o seu reino foi alastrando. Mas o pensamento dos Valar não abandonaram as terras exteriores e estavam perturbados pelas notícias do domínio de Melkor, pois sabiam que se aproximava o despertar dos Elfos. Então Varda, tirando os orvalhos de prata de Telperion, fez novas e mais brilhantes estrelas para a vinda dos primogénitos; e diz-se que, quando terminou os seus labores acordaram os Elfos e a primeira coisa que viram foi a luz das estrelas de Varda, que amaram e reverenciaram sempre.

Foi Oromë, numa das suas caçadas pela Terra Média, quem primeiro descobriu os Elfos e chamou-lhes Eldar, o Povo das Estrelas. Mas descobriu que alguns já estavam atemorizados com as sombras de Melkor e, ao regressar a Valinor, os Valar decidiram retomar o domínio de Arda para os libertar desse terror. Assim se deu a Batalha dos Poderes, em que os Valar aprisionaram Melkor com a corrente Angainor, feita por Aulë, tendo ficado prisioneiro durante três Eras. Esse período ficou conhecido como a Paz de Arda e durou pela maior parte das restantes Eras das Árvores em Valinor e Era das Estrelas na Terra Média.

Nessa Batalha a forma da Terra Média modificou-se muito, houve grande destruição e muitas regiões ficaram desoladas. Por isso, os Valar convidaram os Elfos para irem viver com eles para Aman, o Reino Abençoado. Alguns ficaram receosos, mas foram escolhidos três embaixadores que voltaram maravilhados e desejosos da luz e esplendor das Árvores e cheios de admiração pela glória e majestade dos Valar. Aconselharam então o seu povo a aceitarem o chamamento e, conduzidos por Oromë, iniciaram a Grande Marcha para Ocidente. Foi uma jornada difícil e longa e alguns elfos perderam-se ou desviaram-se e desistiram da grande marcha, preferindo ficar na Terra Média. Estes passaram a ser chamados os Umanyar, pois nunca chegaram ao Reino Abençoado e os Elfos da Escuridão, que nunca viram a luz que existia antes do Sol e da Lua.

As três famílias que chegaram a Aman foram os Vanyar, os Noldor e os Teleri, e os Valar concederam-lhes uma terra para morarem, Eldamar, o Lar dos Elfos. A cidade dos Vanyar e Noldor era Tirion, no monte Túna, onde incidia a luz das Árvores. Mas a recordação da Terra Média sob as estrelas permaneceu no coração dos Noldor e por isso foi aberta uma grande fenda nas muralhas Pelóri, onde podiam ver o mar e as estrelas de Varda e onde a radiância do Reino Abençoado iluminava as ondas e tocava na Ilha Solitária, onde durante uma longa Era viveram os Teleri. Mas por fim o desejo da luz foi mais forte e finalmente chegaram a Aman onde construíram a sua cidade, Alqualondë, o Porto dos Cisnes. Mais tarde os Vanyar passaram a habitar em Taniquetil, junto de Manwë e Varda, e nas florestas de Valinor.

Como de todas as àrvores de Valinor a que os Elfos mais amavam era a Árvore Branca, Yavanna fez-lhes uma árvore como uma imagem reduzida da Telperion, com a diferença que não dava luz própria. Chamaram-lhe Galathilion, em Sindarin. Dos seus muitos rebentos em Eldamar, um foi mais tarde plantado em Tol Eressëa e chamou-se Celeborn e dele proveio Nimloth, a Árvore Branca de Númenor.

Durante esse tempo de paz muitas coisas belas foram feitas e os Eldar atingiram a sua plena maturidade. Mas ao fim de três Eras de cativeiro, Melkor foi conduzido perante os Valar, rogou o perdão de Manwë e jurou que os ajudaria nos seus trabalhos. Manwë concedeu-lhe o seu perdão, mas ficou sob vigilância e durante algum tempo, todas as suas acções pareciam boas. No entanto, o coração de Melkor continuava cheio de maldade e inveja; e subtilmente começou a espalhar mentiras e intrigas nos corações dos Elfos.

Fëanor fez os Silmarils, três grandes gemas que continham dentro de si a luz das Duas Árvores de Valinor, a radiância do Reino Abençoado; e o coração de Melkor desejou-os. Disfarçadamente, procurou maneira de destruir Fëanor e terminar a amizade entre os Eldar e os Valar. Com palavras subtis, conjurou nos seus corações visões dos poderosos reinos que poderiam governar na Terra Média e depressa a paz de Valinor estava envenenada com as suas mentiras e enganos. Secretamente, Melkor fez uma aliança com Ungoliant, uma aranha monstruosa que vivia a Sul de Aman, e ela teceu uma capa de negrume que os ocultou e permitiu que chegassem junto das Árvores Sagradas sem serem notados. Com uma lança preta, Melkor trespassou cada árvore até ao cerne e Ungoliant sorveu toda a seiva, até as Árvores ficarem secas e morrerem. Assim caíu sobre Valinor a Grande Escuridão e o exército dos Valar procuraram Melkor; mas este estava oculto com a anti-luz de Ungoliant e ambos conseguiram escapar.

Yavanna podia devolver as árvores à vida mas para isso precisava de um pouco da sua luz e radiância, que apenas existiam agora nos silmarils. Fëanor sentiu uma grande amargura, pois o seu coração afeiçoara-se muito às jóias e disse que não as partiria de livre vontade; e enquanto estava indeciso, sem saber o que fazer, chegaram mensageiros da sua fortaleza que contaram que Melkor tinha lá ido, matara o seu pai, Finwë, rei dos Noldor e roubara os silmarils. Fëanor ficou enlouquecido de dor pela morte do pai e cheio de angústia pelo roubo dos silmarils, e reclamando a soberania sobre os Noldor, fez um juramento terrível: perseguir com vingança e ódio qualquer um que tivesse as suas jóias e convenceu os Noldor a deixarem Aman e a partirem para a Terra Média, onde combateriam Morgoth e teriam vastos reinos. Assim se deu a rebelião dos Noldor, que partiram de Aman sem o consentimento dos Valar e atacaram os Teleri, para roubarem os seus barcos. Isso fez com que o Reino Abençoado ficasse fechado para eles durante muito tempo, pois os Valar colocaram muitas Ilhas Encantadas que esconderam Valinor das terras exteriores. Este foi o início da Guerra das Jóias, que se estendeu por toda a primeira Era do Sol.

Yavanna e Nienna exerceram todos os seus poderes de saramento sobre as Duas Árvores e por fim, Telperion apresentou uma grande flor de prata e Laurelin um único fruto de ouro, e as Árvores morreram. Os seus troncos sem vida ainda se erguem em Valinor, num monumento à ventura desaparecida. Yavanna deu a flor e o fruto a Aulë, que fez umas grandes naves para os guardar e preservar, Manwë consagrou-os e Varda colocou-as no céu e assim nasceram Anor e Isil, o Sol e a Lua, últimos frutos de Laurelin e Telperion.

As Duas Árvores de Valinor brilharam por um período de 1495 anos dos Valar. Como cada ano dos Valar corresponde a 9582 anos solares, conclui-se que os Anos das Árvores foram 14.325 anos solares.

Artigo escrito por Gwen