A Magia na Terra Média

Escrito por Olórin. Publicado em Outros

A Terra Média é um mundo fascinante e, sem dúvida alguma, diferente do nosso. A diferença entre eles não é apenas a existência de personagens não humanas ou de terras nunca antes descritas. A diferença entre os dois mundos é marcada por aquilo a que nós chamamos Magia, a tão apreciada magia que produz coisas tão belas que nos fazem sonhar com elas como é o exemplo dos Silmarills.
Para entendermos na totalidade aquilo que Tolkien nos tentou transmitir temos que, primeiro, entender o que é a magia e como ela se pode manifestar.
Numa carta dirigida a Naomi Mitchison (carta n.º 155) Tolkien fala de "poderes e talentos inerentes" e diz também, na carta 131 dirigida a Milton Waldman, que os Anéis do Poder "aumentam os poderes naturais do portador". Ainda na carta n.º 155 Tolkien diz que:"uma diferença no uso da ‘magia’ nesta história é que ela não é para ser tomada com ‘lore’ e ‘feitiços’; mas é um poder inerente que os Homens e afins não possuíam."Na Terra Média, todos aqueles não familiarizados com estes poderes encaravam-nos como mágicos mas quem possuía esses poderes não os via como sobrenaturais. Quando os Homens, ou Hobbits falavam de magia estavam, na realidade, a falar destes "poderes e talentos inerentes". Pippin, quando recebe de um Elfo a sua capa em Lothlórien pergunta: "São capas mágicas?" e o Elfo responde: "Não sei o que significa isso" (Irmandade do Anel, p.424). Outro exemplo da não compreensão do termo “magia” por parte dos Elfos é-nos fornecido quando Galadriel oferece a Frodo e Sam a oportunidade de olhar para o seu espelho e diz o seguinte:"Isto é, creio, aquilo a que a sua gente chamaria magia, embora eu não compreenda exactamente o que tal significa, tanto mais que parecem empregar a mesma palavra para os logros do Inimigo. Mas esta, se quiser, é a magia de Galadriel. Não disse que gostaria de ver magia élfica?"
Irmandade do Anel, p. 415Agora surge outra questão, a “magia” dos Elfos e do Inimigo devem ter nomes diferentes? Na carta 155 Tolkien diz o seguinte:"alguns poderiam dizer que existe uma distinção latente como a que antes foi chamada distinção entre magia e goeteia. Galadriel fala dos logros do Inimigo. Mas magia pode ser, era, tida como boa, e goeteia era tida como má. Nenhuma delas é nesta história, boa ou má, e esta classificação depende do motivo ou do objectivo do uso. Ambos os lados usam os dois tipos, mas com diferentes motivos."Na “vida real” existe essa tal distinção entre magia boa e magia má mas Tolkien diz que a distinção entre magia boa e má, na sua história, depende do motivo e objectivo do uso da magia. Vamos por isso falar apenas de magia...
No Senhor dos Anéis a magia é utilizada nas mais variadas formas, primeiramente com efeitos físicos decorrentes o seu uso, como é o caso de Elrond ao controlar o Bruinen ou Gandalf a combater os Nazgûl em Amon Sul e a acender fogueiras para aquecer os companheiros. Depois temos outro uso possível para a magia, afectar a vontade de outros, por exemplo criando ilusões - como as que Gandalf criou fazendo com que as águas do Bruinen adquirissem a forma de cavalos brancos -, ou controlando directamente os outros como era o caso de Saruman com a sua Voz, que levava aqueles que a ouviam a fazer aquilo que ele queria, e dos Nazgûl que de certa forma pareciam influenciar a vontade de Frodo quase ao ponto de o obrigarem a fazer algo... Existe ainda outro fim, muito importante, na utilização da magia - a criação de objectos. Temos o exemplo de espadas Élficas como a Glamdring, que brilhava quando Orcs estavam por perto, ou o exemplo do espelho de Galadriel que permitia ver o passado, o presente e o possível futuro, temos o exemplo das Palantíri e das Portas de Khazad-dum. Todos estes objectos reflectem o poder dos seus criadores... se bem que neste campo tenhamos de contar com outra coisa, o Lore e não tanto com a magia, no entanto, aqueles capazes de usar magia e que possuíam Lore conseguiriam criar objectos muito mais poderosos.
Existem mais formas de manifestação dos poderes inerentes e naturais de cada um, uma delas era a comunicação. Na viajem de regresso de Minas Tirith, após o casamento de Arwen e Aragorn temos um desses exemplos. Galadriel, Celeborn, Elrond e Gandalf passaram muitas noites a “conversar” acerca das Eras passadas mas não falavam, comunicavam telepaticamente:"Frequentemente, muito depois dos Hobbits estarem a dormir, sentavam-se à luz das estrelas e recordavam os séculos que tinham passado e todas as suas alegrias e canseiras no mundo, ou discutiam a respeito dos tempos que viriam. Se calhasse passar algum viandante, pouco veria ou ouviria e julgaria apenas ver vultos cinzentos esculpidos em pedra, monumentos a coisas esquecidas agora perdidos em terras despovoadas. Eles não se mexiam nem falavam com a boca: olhavam de mente para mente e só os seus olhos brilhantes se moviam e cintilavam na ida e volta dos pensamentos."Segundo Tolkien, todos os seres que fossem capazes de pensar eram capazes de usar esta capacidade. Tolkien diz o seguinte:"Os Homens têm a mesma capacidade que os Quendi, mas mais fraca"Os Elfos e, no exemplo dado, também Gandalf (Maiar) têm a capacidade de comunicar entre si sem falar. Tolkien diz que os seres capazes de pensar também conseguem mas a sua capacidade é menor...
Se confrontarmos a frase de Tolkien anterior com aquela que lemos na carta n.º 155 chegamos que a capacidade de comunicar telepaticamente não deve ser considerada “magia” pois Tolkien foi claro ao dizer que os Homens não a possuíam.
Atentando no uso da magia por Gandalf (e é apenas um dos exemplos possíveis...) podemos tentar perceber como a magia podia ser canalizada. Gandalf usava “feitiços”, palavras que invocavam o seu poder (feitiços não... vamos antes chamar-lhes Palavras de Poder). Por exemplo, para acender lenha Gandalf usa as seguintes Palavras de Poder: Naur an edraith ammen! e quando quis incendiar as copas das árvores para se protegerem contra os lobos disse o seguinte: Naua an edraith ammen! Naur an edraith ammen!. Mas saber a Palavras de Poder não era suficiente para que se produzisse magia, eram necessários os tais "poderes e talentos inerentes" e o conhecimento da finalidade da acção para que a magia pudesse ser canalizada através das palavras.
Outro exemplo é o de Finrod Felagund que lutou com Sauron através de cantos de poder, como se diz na "Balada de Leithian". Também Luthien entoou cânticos de poder quando salvou Beren de Tol-in-Gaurhoth e quando com o seu poder adormeceu o próprio Morgoth.
E os menestréis Élficos? São mais um exemplo, é dito que eles tinham o poder de fazer aparecer aquilo que cantavam em frente à audiência. Isso sem dúvida alguma é magia. Na história de Arwen e Aragorn este pensou que tinha invocado uma imagem de Luthien quando pela primeira vez viu Arwen porque tinha estado a cantar uma parte da balada de Beren e Luthien:"De súbito, enquanto cantava, viu uma donzela a caminhar num relvado, entre as colunas brancas das bétulas. Parou, maravilhado, a pensar que estava a sonhar ou então que recebera o dom dos menestréis élficos, capazes de fazerem aparecer as coisas que cantam diante dos olhos dos que escutam."
Regresso do Rei, p. 363A palavra parece ser a principal forma de invocar a magia, mas não a única. Para serem proferidas as Palavras de Poder era necessário algum tempo, certamente dependendo do poder desejado - palavras mais poderosas demorariam mais tempo a preparar -, e força. Mesmo quando estes requisitos eram satisfeitos elas podiam ser resistidas ou contrariadas. Como exemplo disto temos a passagem em que Gandalf explica o que se passou quando tentou fechar a entrada para a câmara funerária de Balin:"Não consegui lembrar-me de mais nada que não fosse tentar dizer um encantamento que fechasse a porta. Sei muitos; mas para fazer cisas deste género bem feitas é preciso tempo e, mesmo assim, a porta pode ser aberta pela força."
Irmandade do Anel, p. 376O encantamento que Gandalf estava a proferir foi contrariado pelo poder do Balrog, outro Maiar, e como tal capaz de utilizar magia:"O contra-encantamento foi terrível e quase me destruiu. Por instantes, a porta furtou-se ao meu domínio e começou a abrir-se! Tive de proferir uma ordem! Mas isso exigiu uma grande tensão, e a porta fez-se em pedaços."
Irmandade do Anel, p. 376O confronto entre dois seres utilizadores de magia era perigoso para os intervenientes. Gandalf estava muito abalado pelo confronto com o Balrog. O uso da magia podia drenar a energia da pessoa como uma actividade física desgastante pode drenar a força muscular da pessoa.Mas e quanto ao poder inerente a cada Raça? Tolkien diz que aos tais "poderes e talentos inerentes" os Homens e afins não possuíam. Afins quererá dizer, neste contexto, outros mortais, como os Hobbits mas não os Anões...
É provável que a magia estivesse concentrada onde estivessem os Elfos, mais do que em qualquer parte da Terra Média. Tolkien descreveu a “magia Élfica” como arte, o seu objectivo era a criação, não a obtenção de poder ou a dominação. Eles usavam a “arte” para preservar a beleza das coisas e dos seus domínios na Terra Média. Dois dos três anéis do poder criados pelos Noldor na 2ª Era eram usados por Elrond e Galadriel para preservar e aumentar a beleza de Rivendell e Lothlórien, respectivamente. Os Elfos usavam os seus poderes na criação de objectos (barcos, roupas, jóias e armas por exemplo) ou canções para que estes tivessem “poderes mágicos”:"São capas Élficas, sem dúvida nenhuma, se é isso o que querem dizer. Folha e ramo, água e pedra: têm a tonalidade e a beleza de todas essas coisas no crepúsculo de Lórien, que tanto amamos, pois pomos o pensamento de tudo quanto amamos em tudo o que fazemos."
Irmandade do Anel, p. 424-25Todos os membros da raça Élfica parecem ter um poder natural, uns mais do que outros certamente, os seus Senhores eram especialmente fortes e por isso eram temidos pelos Nazgûl e outras criaturas maléficas.
Os Elfos também usavam o seu poder na Guerra e para se defenderem. Elrond derrotou os Nazgûl provocando um aumento do caudal do Bruinen:"O rio deste vale está sob o seu poder e sobe, colérico, quando ele tem grande necessidade de inutilizar o vau."
Irmandade do Anel, p. 261

O sucesso de Lothlórien no que respeita a resistir ao poder de Sauron é atribuído ao poder daquela terra (ou de quem lá habita): "O poder que lá morava era grande demais para qualquer um, a não ser que Sauron lá fosse pessoalmente.". Galadriel, sem dúvida alguma, usa o seu poder para destruir Dol Guldur, onde "derrubou as suas muralhas, pôs a descoberto as suas minas e a floresta foi purificada." (Regresso do Rei, p. 419).Entre as outras raças, os Anões, definitivamente, tinham os seus poderes naturais, mas será que conseguiam usar magia? Isto eles manifestavam nas suas obras, como a entrada para a Montanha Solitária, que não se distinguia do resto da rocha e tinha uma fechadura que só aparecia numa determinada altura; ou as portas Ocidentais de Khazad-dum (criadas com ajuda Élfica), que eram abertas por um comando verbal específico.
Já tentaram imaginar os talentosos ferreiros Anões como Telchar ou Gamil Zirak, o seu mestre, a proferir cânticos de poder nas suas forjas, a canalizar o seu poder para as suas criações? Acho que não... Uma definição importante na obra de Tolkien é a definição de Lore. Lore é conhecimento e tradição, adquiridos através do estudo e que pode ser usado no fabrico de objectos. Os Noldor, que numa das cartas de Tolkien foram por ele chamados de "Loremasters" sempre tiveram uma maior afinidade com os Anões do que qualquer outra das famílias dos Elfos. Esta afinidade era devida ao desejo que os dois povos tinham de criar objectos de grande poder e pelo facto de poderem beneficiar ambos com a troca de conhecimento... de Lore... Lore é diferente de Magia (ver definição no início do texto) e embora os Noldor consigam usar magia os Anões não conseguiam. Eles usavam o Lore como meio de fabricar objectos com propriedades especiais, colocando runas de poder nas suas criações. Elmos de imensurável poder, machados com lâminas mortalmente afiadas, portas fortes e inquebráveis e mesmo brinquedos maravilhosos deviam ser as suas obras e algumas são bem conhecidas, Angrist, Narsil e o Elmo de Hador por exemplo..."Os anões antigos poderosos encantamentos fizeram
Enquanto martelos desciam como sinos vibrantes,
Em lugares fundos onde escuras coisas dormem,
Em salões ocos debaixo das montanhas."
Até onde iria o poder dos Anões não nos é dito completamente, pois a sua raça é muito reservada e muitos são os pontos desconhecidos no que respeita à sua história. Sabemos que, e isso é dito no Silmarillion, a sua raça é altamente resistente ao controlo pela magia, por isso Sauron nunca conseguiu os seus intentos ao dar-lhes os seus anéis do poder. Os 7 não sofreram o mesmo destino dos 9...Os Dragões, detentores de um poder físico imenso e de uma inteligência inimaginável, à partida não necessitariam de talentos adicionais. Mas Glaurung, o Pai dos Dragões, o Dourado, o grande Dragão da 1ª Era era ainda capaz de exercer controle mental sobre os outros seres e até Túrin caiu no seu “feitiço” pois, devido à astúcia característica dos Dragões, foi levado a tirar o Elmo de Hador que o teria protegido contra o Grande Verme. Mais tarde, voltou a usar o seu o poder lançando novo feitiço, mas agora sobre Nienor a irmã de Túrin provocando-lhe o desaparecimento de todas as memórias até à data e levando ao triste fim que todos conhecemos. A magia empreguem por Glaurung era diferente, não era canalizada por palavras ou pelo menos nada é dito nesse sentido e já me interroguei várias vezes qual a sua origem. Nos Contos Inacabados é dito (página 138 ) que aos olhos de Glaurung "enchia-os o espírito maldito de Morgoth". Terá Morgoth imbuído Glaurung de poder? Será ele a origem da força mental de Glaurung? Os seus “descendentes” parecem ter um poder similar, muito inferior mas similar. Um perigo referido na conversa entre Bilbo e Smaug quando este tentava convencer Bilbo de que os Anões seriam injustos com ele:"Bilbo começava a sentir-se verdadeiramente desconfortável. Tremia sempre que o olho errante de Smaug, a procura-lo nas sombras, o trespassava, e apoderava-se dele um desejo inexplicável de se revelar impetuosamente e dizer a verdade a Smaug. Na realidade corria o sério perigo de ficar sob o encantamento do dragão."
O Hobbit, p. 194Aos Hobbits não são conhecidas nenhumas capacidades “mágicas”, Bilbo, Frodo e mesmo Sam (este menos pois foi apenas portador do anel durante pouco tempo) mostraram grande resistência ao Um mas não há relatos de um Hobbit capaz de fazer magia.Também os espectros das Colinas das Antas eram capaz de usar magia canalizada pelas palavras, lembrem-se da canção, ou encantamento que o espectro proferiu:"Frios sejam a mão, o coração e o osso,
e frio seja o sono debaixo de pedra:
que nunca mais acordem no leito pétreo,
nunca, até o Sol não nascer e morrer a Lua.
No vento preto as estrelas morrerão,
E aqui permaneçam, imóveis, entre ouro,
Até o Senhor das Trevas erguer a mão
Sobre o mar sem vida e a terra seca."
Frodo teve mesmo a sensação de que o encantamento tinha transformado em pedra mas finalmente conseguiu ter a presença de espírito para repetir a cantiga que Tom lhe ensinou e como que por magia, passado pouco tempo Tom apareceu e, mais uma vez, com uma canção provocou a queda da câmara e salvou os Hobbits.Tom Bombadil, independentemente da “raça” onde o queiramos incluir ele também era capaz de usar magia, e também a canalizava através das palavras, de canções. Foi através da palavra que Tom libertou os Hobbits do Velho Salgueiro Homem.Os Nazgûl (não são uma raça) também usavam magia. Há no entanto que separar duas situações: Enquanto eram mortais - Homens - e enquanto Espectros. Enquanto mortais os Anéis aumentavam os seus poderes inerentes e naturais, e sabemos que muitos foram grandes feiticeiros em vida, e enquanto espectros, embora não tivessem os seus Anéis, usavam magia."Então, o da frente, que se encontrava a meio do vau, ergueu-se ameaçador nos estribos e levantou a mão. Frodo emudeceu. Sentiu a língua colar-se-lhe à boca e o coração bater com dificuldade. A sua espada partiu-se e caiu-lhe da mão trémula."
A Irmandade do Anel, p. 252"Então o Capitão Negro ergueu-se nos estribos e gritou alto, numa voz horrível, proferiu numa língua esquecida palavras de força e terror capazes de despedaçar corações e pedras.
Gritou três vezes, e três vezes o grande aríete foi arremessado para a frente. De súbito, ao último ataque, a porta de Gondor cedeu. Desfez-se, como atingida pela força destruidora de algum encantamento: brilhou um clarão de luz ofuscante e as portadas caíram no chão, aos bocados."

O Regresso do Rei, p. 107-08A origem dessa magia era, no entanto, derivada de Sauron, fazia parte da natureza deles usar magia, um prémio pela sua lealdade, um prémio que foi conseguido a alto preço... a escravidão.Os Istari também não são uma raça, como sabemos são Maiar, e usavam magia. Há quem diga que essa magia era “conduzida” para o exterior através dos seus bastões. Leiam as seguintes passagens onde Gandalf usa o seu bastão:"O feiticeiro passou para a frente, subiu os grandes degraus e levantou o bastão, em cuja ponta brilhou uma ténue radiância.""Com a mão esquerda segurava o bastão, cuja luz fraca mal mostrava o chão è frente dos seus pés, e com a direita empunhava a espada. Glamdring."
A Irmandade do Anel, p. 357"Levantou o bastão, e o machado de Gimli saltou-lhe da mão e caiu ruidosamente no chão. A espada de Aragorn, erecta na sua mão imóvel, ficou, de súbito, incandescente. Legolas deu um grande grito e disparou uma seta para o ar, a qual desapareceu numa labareda."
As Duas Torres, p. 106"Ergueu o bastão, e ouviu-se ribombar o trovão. O sol apagou-se das janelas do lado Oriental, e todo o salão ficou subitamente escuro como se fosse de noite. O fogo esmoreceu, reduzido a carvões mortiços. Só Gandalf se via, branco e alto, diante da lareira escurecida.
- Não te aconselhei, senhor, a proibires que ele trouxesse o bastão? Aquele idiota do Háma traiu-nos!"

As Duas Torres, p. 129"Gandalf é uma substituição na narrativa inglesa nas mesmas condições do tratamento dos nomes «Hobbit» e «Anão». É na realidade um nome Nórdico (encontrado aplicado a um Anão em Völuspá) e usado por mim por parecer conter gandr, um bordão, uma vara especialmente usada em «magia», e por poder supor-se que significa «criatura élfica com uma vara [mágica]»"
Contos Inacabados, p. 411Estas passagens dão a entender que o bastão era necessário para Gandalf usar magia. Não que o bastão seja em si, mágico, mas um dispositivo pelo qual a magia de Gandalf era manifestada. No caso dos Istari o bastão serve também como símbolo da Ordem. De facto, quando Gandalf parte o bastão de Saruman retira-o da Ordem originando a perda dos poderes do mesmo (quase todos, como Frodo mais tarde viria a dizer pois a voz continuava um bom meio de manifestação dos seus, agora parcos, poderes.Os Homens da Terra Média, salvo algumas excepções, não conseguiam usar a magia e encaravam como mágico tudo aquilo que estava para lá da sua compreensão ou capacidade. Como Tolkien disse: a magia é uma poder inerente que os Homens não possuíam. Há quem diga que a falta de capacidade, a falta de talento natural dos Homens para a magia era devido à sua posição no esquema de Ilúvatar. Ao contrário dos Elfos, os Homens não estavam ligados aos círculos do mundo. Após a morte era desconhecido o destino dos Homens. Talvez por não estarem ligados aos círculos do mundo os Homens não podiam estar ligados ao poder do mundo. Os Hobbits, que também não tinham poderes naturais podiam ter o mesmo destino dos Homens.
Como foi dito acima, existiam excepções à regra. Aragorn (à semelhança dos antigos Reis) demostrava um grande poder curativo, especialmente contra o Hálito Negro, "as mãos do Rei são mãos que curam". Este facto pode ser devido aos distantes laços que os Reis tinham com os Eldar. Mas para além deles temos mais exemplos, o caso de Beorn que era capaz de se transformar em Urso, as referencias a Malbeth que previu muitos anos antes a passagem de Aragorn pelo Caminho dos Mortos, temos o Druedain chamado Aghan, interveniente na história da Pedra Fiel. Aghan passou algum do seu poder para a pedra vigia que fez para vigiar os seus amigos enquanto ele se ausentava. A pedra ganhou vida para proteger os amigos de um ataque de Orcs e para apagar um fogo mas parte do dano sofrido pela pedra passou para Aghan e este ficou ferido como consequência da passagem dos seus poderes para a pedra. Tolkien pronunciou-se acerca desta história dizendo:"As histórias, como A Pedra Fiel, que falam da transferência de poder para os artefactos por parte dos criadores, fazem-me lembrar uma miniatura da transferência de poder que Sauron efectuou para o Um e para as fundações de Barad-dûr."Esta afirmação parece aplicar-se a toda a magia que afecta o Mundo Primário na Terra Média: qualquer acto “mágico”, quer seja efectuado por Maia, Vala, Elfo, Homem ou Anão, requer um investimento de poder por parte do sujeito de forma a que possa ser efectuado.
As capacidades destes Homens, Aragorn (e os outros Reis), Beorn, Aghan e Malbeth eram naturais. Alguns Homens, no entanto, tentaram obter mais poder de forma não natural.
Faramir, em conversa com Sam e Frodo, falou um pouco da História de Gondor e admite que as actos pouco dignos foram praticadas por muitos, mas não todos, nem sempre:"Não se pretende dizer que as artes diabólicas foram sempre praticadas em Gondor..."Fala mesmo da obsessão de alguns Numenorianos pela vida, e de como tentavam prolonga-la, por vezes através da alquimia:"Senhores sem descendência sentavam-se em velhos palácios a pensar em heráldica; em câmaras secretas, Homens mirrados compunham elixires fortes ou, em torres frias e altas, interrogavam as estrelas."
As Duas Torres, p. 311Estas actividades eram certamente mantidas secretas devido ao medo que os implicados tinham de ser apelidados de feiticeiros malévolos. Mais negras eram as práticas que alguns Homens e outras raças levavam a cabo, aquilo a que alguns chamam Artes Negras.Morgoth e Sauron tinham imensos poderes naturais, pois eram um Valar e um Maiar, respectivamente. Apesar de poderem contar com exércitos poderosíssimos e máquinas, que segundo a carta 155 de Tolkien podem conduzir aos mesmos fins da magia, esta foi uma arma poderosa dos Senhores das Trevas na perseguição do seu objectivo máximo – a dominação."Mas a magia pode não ser fácil de executar e, de qualquer forma, se você comandar um vasto número de escravos ou maquinaria (muitas vezes a mesma coisa mas dissimulada), pode ser tão rápido, ou suficientemente rápido mover montanhas, devastar florestas, ou construir pirâmides com estes meios."
Carta 155 de TolkienA forma de magia associada aos Senhores Negros era conhecida como as Artes Negras, ou feitiçaria. Era malévola e não natural. Entre os seus praticantes estavam os Homens e desses muitos eram Numenorianos, Numenorianos Negros e caíram sob a influencia de Sauron: "Muitos enamoraram-se das trevas e das Artes Negras...".
O comandante da Torre de Barad-dûr, a Boca de Sauron, que se apresentou aos capitães do Ocidente em frente às portas de Mordor era um desses Numenorianos negros e aprendeu grande bruxaria ao serviço de Sauron, como é dito na página 176 do Regresso do Rei. Outro exemplo de Homens que Sauron “seduziu” é o dos 9 Nazgûl seduzidos com os Anéis do Poder, alguns foram feiticeiros durante a sua existência mortal. É dito no Silmarillion que aqueles que usavam os Nove Anéis se tornaram poderosos no seu tempo, feiticeiros, reis e guerreiros temíveis.
Tal como os poderes naturais, as artes negras podiam ser canalizadas para criações físicas. Grond, um aríete colossal usado para destruir as portas de Minas Tirith, foi um exemplo:"Demorada fora a sua fundição nas escuras forjas de Mordor, a sua hedionda cabeça de aço negro tinha a forma de um lobo voraz e nela tinham sido feitos encantamentos de destruição."Uma característica única das artes negras era que elas não dependiam dos poderes inatos de cada um, apenas, podia ser efectuada através da utilização de recursos externos e “negros”. Por isso os Homens conseguiam praticar bruxaria e não magia... pois esta era dependente dos poderes naturais e inatos. Como os Homens não tinham os tais poderes inatos, iam buscar poder a outros sítios, uma violação das leis naturais da magia na Terra Média.
Outra característica das artes negras era a invocação e controlo de espíritos. Pouco se sabe acerca destes espíritos, podem ser habitantes naturais da Terra Média, espíritos dos mortos (como os Mortos de Dunharrow), ou podem vir do vácuo – para onde Morgoth foi enviado. Há alguns exemplos de situações do uso destes espíritos pelo Inimigo e pelo menos uma em que eles ajudaram na luta contra ele:
Os espectros do Anel foram Homens cujos espíritos foram escravizados por Sauron. O seu líder, o Rei Bruxo, foi um feiticeiro muito poderoso.
Os espectros das antas foram uma herança da bruxaria do Senhor dos Nazgûl. Ele usou-os em 1636 para conspurcar Tyrn Gorthad, a antiga habitação dos Dúnedain de Cardolan. Eles estavam ligados à câmara funerária que habitavam e atraíam viajantes para lá com os seus poderes.
As duas sentinelas de Cirith Ungol eram mais um exemplo. A entrada da fortaleza estava guardada pelo poder dos espíritos que estavam dentro das estátuas. O poder das duas estátuas foi testado por Sam que sentia uma força invisível a barrar-lhe o caminho. Mais tarde os espíritos soltaram um grito de alarme quando Sam usou a luz de Eärendil e passou a porta.
Como foi dito antes, há um exemplo em que estes espíritos ajudaram na luta contra Sauron. Foi quando Aragorn comandou o exército dos mortos. Mas este caso é diferente pois foi Isildur que os impediu de ter descanso até que eles cumprissem o prometido, Aragorn não os invocou, apenas os convocou e estes finalmente cumpriram o juramento.E em relação aos Maiar E aos Valar? Todos os Maiar (Istari, Sauron, Balrog) e Valar (Morgoth) referidos até aqui estão de certa forma ligados à Terra Média da mesma forma que o resto dos seus habitantes. Mas e os outros? Aqueles que estão em Aman? Esses acho que devem ser tratados de forma diferente, eles eram os “guardiães angélicos” da Terra Média e certamente conseguiam fazer coisas sobrenaturais mas essas coisas devem ser consideradas poder divino e não magia. E por isso não serão mencionados.
Os que foram mencionados até aqui, ou porque os seus poderes estão limitados pela forma (Istari) ou porque se viraram para a dominação (Sauron, Morgoth e Balrog) perderam o estatuto de divindades e o seu poder divino desceu (talvez exceptuando Morgoth) ao nível da magia.Outro ponto importante no contexto da magia são as Runas “mágicas”, na verdade, e após ler alguns textos, interrogo-me se elas devem ser chamadas de mágicas. Uma definição importante na obra de Tolkien é a definição de Lore. Lore, como foi dito antes, é conhecimento e tradição, adquiridos através do estudo e que pode ser usado no fabrico de objectos. As natureza das Runas nunca foi esclarecida por Tolkien mas nós podemos inferir algo acerca delas tendo em conta o contexto histórico que Tolkien usou para construir a Terra Média. Nós sabemos que Tolkien foi influenciado pela história Germânica e Anglo-Saxonica . Nestas culturas o uso das runas também era para fins “mágicos” e eram colocadas em objectos para lhes conferir algum poder - as runas tinham nomes e se alguém conhecia uma runa e sabia que ela conferia uma certa propriedade então colocava-a num objecto que podia beneficiar dessa propriedade. Na Terra Média as coisas deveriam passar-se de forma mais ou menos similar. Existem vários exemplos de objectos criados através do Lore e que tinham runas (ou não) inscritas que lhes conferiam alguma forma de poder:

- Os Anéis Élficos
- As Palantír
- As Lanternas dos Noldor
- O Espelho de Galadriel
- A Luz de Eärendil
- A Bainha de Andúril
- A Elessar
- O Elmo de Hador
- Ás Portas de Mória
- As Espadas das Colinas das Antas
- O Anel Um
- As Lâminas de Morgul


Este artigo foi escrito por Olórin