Ungoliant

Escrito por Mith. Publicado em Personagens

Ungoliant
A Tecelã da Escuridão

Datas: data de entrada no mundo desconhecida, desapareceu em Beleriand nos últimos anos das Eras da Escuridão
Raça: desconhecida, talvez Ainur
Nomes: Gloomweaver, Wirilómë, Ungoliantë, Ungwë Lianti, Ungoliont, Ungweliantë, Delduthling, Gwerlum
Títulos: A Grande Aranha, A Tecelã da Escuridão
Significado do nome: desconhecido

Os Eldar não sabiam de onde ela veio; mas alguns disseram que em Eras há muito passadas Ungoliant foi gerada da escuridão que se deita sobre Arda, quando Melkor desdenhou pela primeira vez em inveja o Reino de Manwë, e que no começo esta mesma foi um daqueles que ele corrompeu a seu serviço. Mas Ungoliant havia rejeitado seu Mestre, desejando ser a senhora de seus desejos, tomando todas as coisas para si própria na ânsia de alimentar seu vazio Quando Ungoliant deixou o serviço de Melkor, fugiu secretamente para o sul, escapando dos Valar e os caçadores de Oromë. Ela veio a viver em uma ravina em Avathar, onde tomou o formato de uma aranha de forma monstruosa, tecendo redes negras através das fendas nas montanhas. Enquanto estava lá, tornou-se faminta e viveu em constante tormento enquanto todas as coisas vivas tinham que fugir para longe dela. Ali, sugava toda a luz que conseguia encontrar e passava a tecê-las em redes sinistras de uma escuridão sufocante, até que nenhuma luz conseguiu mais chegar à sua morada; e ela estava faminta, mas por causa de sua fraqueza de fome, não tinha a força para se mudar para uma nova região de caça.

Então Morgoth veio procurando por ela em sua terrível forma de Senhor do Escuro; e quando Ungoliant o viu chegando teve medo, conhecendo o seu ódio por todos que tentavam escapar de seu domínio. Ela recolheu-se em sua profunda toca e tentou se esconder em uma nova sombra; mas tanto quanto podia tecer em sua fome não era defesa contra os olhos de Melkor, Senhor de Utumno e Angband. Inicialmente, Ungoliant não veio para fora. Quando Melkor tentou-a com gemas lentamente Ungoliant saiu; mas quando se aproximou Melkor conteve a isca:

- Não, não, - disse Melkor - eu não te trouxe estas doçuras Élficas em amor ou piedade; elas são para te fortalecer, quando tu concordares em cumprir minha oferta.

- E qual é sua oferta, mestre? - perguntou Ungoliant, seus olhos brilhando sobre as gemas.

E então Ungoliant compreendeu os propósitos de Melkor, e contudo ficou num dilema entre o desejo e um medo imenso. Pois ela não se dispunha a desafiar os perigos de Aman e o poder dos Senhor temíveis; e se recusava a sair do esconderijo. Disse-lhe, portanto, Melkor: -Faz o que ordeno; e se ainda sentires fome quando tudo estiver terminado, eu te darei aquilo que teu desejo possa exigir. Sim, e com as duas mãos. Com frivolidade fez ele esse voto, como sempre; e, em seu íntimo, ele ria. Foi assim que o grande ladrão conseguiu seduzir a que lhe era inferior.

Ungoliant então teceu um manto de escuridão em volta de si e de Melkor; uma Antiluz, na qual as coisas pareciam não mais existir, e na qual os olhos não podiam penetrar, pois esta era vazia. Ela começou a tecer suas teias através das montanhas, escalando mais e mais acima até que alcançou o topo de Hyarmentir, a maior montanha naquela região do mundo. Então fez uma escada de cordas tecidas e lançou-a abaixo para Melkor, que subiu-a para alcançar o topo. De lá, os dois olharam em cobiça e inveja os reinos de Valinor. Melkor rapidamente começou a descer os grandes declives ocidentais, Ungoliant estava a seu lado e a escuridão dela os cobria.

Diz-se que, no momento em que ocorreu a mescla das luzes, quando as duas Árvores brilharam, e a cidade silenciosa de Valmar se encheu de um brilho de ouro e prata, naquele mesmo instante, Melkor e Ungoliant atravessaram apressados os campos de Valinor, como a sombra de uma nuvem negra ao sabor do vento que passa veloz sobre a terra ensolarada. E os dois chegaram à colina verde de Ezellohar. Então a Antiluz de Ungoliant subiu até as raízes das Árvores, e Melkor de um salto escalou a colina. E, com sua lança negra, atingiu cada Árvore até o cerne, ferindo todas profundamente. E a seiva jorrou como se fosse seu sangue e se derramou pelo chão. Contudo, Ungoliant tudo sugou; e, indo de uma Árvore a outra, grudou seu bico negro nos ferimentos até que as esgotou. E o veneno da Morte que ela continha penetrou em seus tecidos e as fez murchar, na raiz, no galho, na folha. E eles morreram. E, ainda assim, Ungoliant sentiu sede. Foi até os Poços de Varda, e também os secou; mas Ungoliant arrotava vapores negros enquanto bebia; e inchou tanto, e de forma tão horrenda, que Melkor sentiu medo.

Eles entraram em Valinor em um dia de festival, quando Valimar foi deixada tranqüila e sossegada. Na hora da mistura das luzes das Árvores, Melkor e Ungoliant chegaram diante de Ezellohar, e a Antiluz de Ungoliant elevou-se mesmo até as raízes das Árvores. Melkor golpeou cada Árvore em seu centro com sua lança negra, a seiva delas jorrou como se fosse sangue e foi derramada no chão. Ungoliant sugou a seiva derramada, e então foi de Árvore em Árvore fixando sua boca negra nas feridas delas até que estivessem esgotadas. O veneno de Morte que estava nela entrou nos tecidos das árvores e as secou, e assim morreram as Duas Árvores de Valinor.

Abateu-se assim sobre Valinor a grande escuridão. Dos feitos daquele dia, muito está relatado do Aldudénië , que Elemírë dos vanyar compôs e é conhecido de todos os eldar. No entanto, nenhuma canção ou história poderia conter toda a dor e o terror que se sucederam. A Luz desapareceu; mas a Escuridão que se seguiu era mais do que falta de luz. Naquela hora, criou-se uma Escuridão que parecia ser não uma falta, mas um ser provido de existência própria: pois ela era, na realidade, feita de maldade a partir da luz, e tinha o poder de penetrar no olho, de entrar no coração e na mente, e sufocar a própria vontade.

Enquanto isso, Morgoth, em sua fuga à perseguição dos Valar, chegava aos ermos de Araman. Essa terra ficava ao norte entre as Montanhas das Pelóri e o Grande mar, como Avathar ficava ao sul. Araman era, entretanto, uma terra mais larga; e entre as praias e as montanhas havia planícies áridas, cada vez mais frias com a aproximação do Gelo. Morgoth e Ungoliant passaram às pressas por essa região, atravessando assim as grandes brumas de Oiomúrë até Helcaraxë, onde o estreito entre Araman e a Terra-média era cheio de gelo em constante atrito; e ele fez a travessia, contando por fim para o norte das Terras de Fora. Juntos, eles prosseguiram, pois Morgoth não conseguiu escapar a Ungoliant, e a nuvem dela ainda o envolvia enquanto todos os olhos dela o vigiavam; e chegaram àquelas terras que ficavam ao norte do Estuário de Drengist. Agora Morgoth se aproximava das ruínas de Angband, onde no passado ficara sua grande fortaleza ocidental. E Ungoliant percebeu sua esperança e soube que ali ele procuraria fugir. Fez, então. Com que ele parasse e exigiu que cumprisse sua promessa.

-Monstro cruel! - disse ela. -Fiz o que pediste. Mas ainda estou com fome.

-O que mais queres devorar? - respondeu Morgoth - Desejas o mundo inteiro para encher a barriga? Não jurei te dar isso. Eu sou o Senhor do mundo.

-Não desejo tudo isso. Mas tu tens um imenso tesouro de Formenos. É o que quero. Sim, e com as duas mãos tu o entregarás.

Foi assim que, forçado, Morgoth lhe entregou as pedras preciosas que trazia consigo, uma a uma e com relutância. E, quando ela as devorou, a beleza delas desapareceu do mundo. Cada vez maior e mais sinistra tornava-se Ungoliant, mas sua voracidade não estava saciada. - Com apenas uma das mãos tu dás - disse ela - somente com a esquerda. Abre tua mão direita.

Na mão direita, Morgoth segurava firme as Silmarils e, embora estivessem guardadas num porta-jóias de cristal, já começavam a queimá-lo, e era com grande dor que ele mantinha a mão cerrada; mas se recusava a abri-la.

-Não! Já recebeste teu quinhão. Pois com meu poder, que te transmiti, tua parte foi feita. Não preciso mais de ti. Estas pedras tu não terás, nem as verás. Eu as tomo para mim para sempre.

Ungoliant, entretanto, se havia tornado enorme, enquanto ele ficara menor, pelo poder que dele havia saído. E ela se rebelou contra ele, cercando-o com sua nuvem, e o enredou numa teia de tiras grudentas para sufocá-lo. Morgoth deu então um grito terrível, que ecoou pelas montanhas. Por esse motivo, aquela região foi chamada de Lammoth; pois os ecos de sua voz permaneceram ali para sempre, de tal modo que quem desse um grito naquele lugar os despertava, e todos os recantos isolados entre os montes e o mar ficavam cheios de um clamor de vozes em agonia. Naquela hora, o grito de Morgoth foi o maior e mais horrendo jamais ouvido no norte do mundo. Abalou as montanhas, a terra tremeu e rochas se fenderam. Nas profundezas de lugares esquecidos, aquele grito foi ouvido. Muito abaixo dos salões destruídos de Angband, em subterrâneos aos quais os Valar, na pressa de seu ataque, não haviam descido, Balrogs ainda estavam escondidos, sempre à espera do retorno de seu Senhor. E agora, velozes, eles se ergueram e, passando por Hithlum, chegaram a Lammoth como uma tempestade de chamas. Com seus açoites de fogo, eles rasgaram as teias de Ungoliant; e ela se acovardou e procurou fugir, soltando vapores negros para se encobrir. E, tendo escapado do norte, ela pousou em Beleriand e foi morar nos sopés das Ered Gorgoroth, naquele vale sinistro que mais tarde foi chamado de Nan Dungorthed, o Vale da Morte Horrenda, em decorrência dos horrores que ela espalhou por lá. Pois outras criaturas nefastas em fora de aranha ali habitavam desde os tempos das escavações de Angband, e ela copulava com essas criaturas e as devorava. E, mesmo depois que a própria Ungoliant partiu, não se sabe para onde, nas plagas esquecidas do sul, sua prole permaneceu ali, tecendo suas teias hediondas. Do destino de Ungoliant, não há história que fale. Contudo, há quem tenha dito que teve seu fim há muito tempo, quando, em sua fome extrema, ela própria acabou devorando a si própria.

Do destino final de Ungoliant nenhum conto fala. Contudo alguns disseram que ela teve fim há muito tempo atrás, quando em sua mais devastadora fome, afinal devorou a si mesma. Todavia, a versão mais antiga de o Silmarillion tem um fim diferente para Ungoliant - ao invés de possivelmente definhar, ela foi morta por Eärendil no Sul do mundo.

Mas final, o que era Ungoliant? Primeiramente, vamos considerar o que Tolkien nos fala a respeito dela:

"os Eldar não sabiam de onde ela veio; mas alguns disseram que nas eras há muito passadas ela descendeu da escuridão que se deita sobre Arda, quando Melkor pela primeira vez invejou o Reino de Manwë, e que no início era uma daqueles que ele corrompeu a seu serviço. Mas ela rejeitou seu mestre, desejando ser senhora da sua própria fome e tomando todas as coisas para alimentar seu vazio" (O Silmarillion, Do Ocaso de Valinor)

"não é dito de onde ela veio; da Escuridão Exterior, talvez, que fica além das Muralhas do mundo" (The Lost Road, Quenta Silmarillion)

"o tempo da vinda de Ungoliant para Arda é situado (como uma conjetura) com a entrada de Melkor e de sua hoste, e antes da destruição das Lâmpadas dos Valar" (Morgoth's Ring, notas para The Annals of Aman)

Igualmente, há mais informação interessante em The Book of Lost Tales I, onde uma versão anterior de Ungoliant é conhecida como Móru, descrita como a 'Noite Primeva' personificada na grande Aranha.

"aqui vivia o espírito primevo de Móru, de quem nem mesmo os Valar sabiam de onde ou quando chegou, e o povo da Terra deu-lhe muitos nomes. Porventura ela era originada de névoas e escuridão nos confins dos Mares Sombrios, e naquela escuridão absoluta chegou entre a destruição das Lâmpadas e o acender das Árvores, porém mais como ela sempre existiu; ela é quem ama ainda viver naquele lugar negro assumindo a aparência de uma aranha desagradável, tecendo uma teia pegajosa de escuridão que captura em sua rede estrelas e luas e todas as coisas brilhantes que navegavam os ares" (Book of Lost Tales, The Theft of Melko)

"a idéia original do 'espírito primevo de Móru, é feita explícita em uma entrada na lista de palavras original da linguagem Élfica, onde o nome Muru é definido como 'um nome da Noite Primeva personificada como Gwerlum ou Gungliont" (BoLT I, notas para The Theft of Melko)

Então quais são as possibilidades? Existem duas possibilidades reais:
1) que Ungoliant era um dos Maiar
2) que Ungoliant era algo diferente de um dos Maiar

Acredito que Ungoliant é uma das outras criações de Ilúvatar, fora do panteão dos Valar, e talvez junto as linhas de espíritos da natureza. Por que? Primeiramente, ela é muito diferente dos outros Ainur. Não apenas no fato de que está na forma de uma aranha, mas porque parece totalmente desalmada e vazia de tudo aparte de fome. Por mais que alguns dos Maiar tornaram-se maus, nunca ficaram daquele jeito - existindo somente para se alimentar com pouco pensamento sobre qualquer outra coisa.

Uma outra razão é sua "anti-luz". Não sabemos o que isso era, mas é possível que ela de alguma maneira tenha retirado uma parte da escuridão absoluta do Vazio, ou talvez usou alguma forma de magia para sugar a luz de seu ambiente imediato. Mas o que é tão especial a respeito disso é que Melkor parece não ter sido capaz de fazer tal coisa. Porque se ele pudesse, estou certo de que teríamos visto isso em algum ponto pelo seu tempo na Terra-média – seria um poder útil demais para ignorar. E Morgoth tinha um bom conhecimento do Vazio, tendo explorado este por muitos anos buscando pela Chama Imperecível. Assim minha questão seria, por que (e como) poderia um mero Maia fazer algo que o mais poderoso dos Valar teoricamente não podia?

Ela também conseguia assustar Melkor com seus apetites, que sugeririam que embora ele a tivesse corrompido a seu serviço há muito tempo atrás, ela ainda tinha uma grande quantidade de autonomia, e também que era muito mais incontrolável – mesmo por Melkor. Se ela fosse um dos seus Maiar, mesmo uma rebelde, eu teria pensado que ele a tinha sob maior controle. Mas qual é o contra-argumento para isso? Quais são as razões para pensar que Ungoliant poderia ser um Maia? Talvez a principal razão seja o poder que ela pode convocar. Alguns dos Maiar são extremamente poderosos – Ossë ou Sauron por exemplo – e estes poderiam ser comparados a Ungoliant. Há também o fato de que os Valar pensavam que ela era um daqueles corrompidos ao serviço de Melkor, e como todos os outros que Melkor corrompeu a seu serviço tão cedo na história de Arda eram Maiar, então seria compreensível que Ungoliant fosse também.

Infelizmente, Tolkien não nos fornece muita informação sobre ela, então nunca saberemos com certeza que tipo de criatura era Ungoliant. No entanto o modo como eu prefiro contemplar-lhe é a maneira como é descrita em Book of Lost Tales I – uma força da natureza, noite primeva, sempre faminta, sempre precisando de luz, a representação da noite comparada à luz radiante de Valinor.

Tolkien experimentou uma grande quantidade de nomes antes de decidir-se por Ungoliant. Estes são dados abaixo: Gloomweaver (Tecelã da Escuridão), Wirilómë, Ungoliantë, Ungwë Lianti, Ungoliont, Ungweliantë, Delduthling (Noldorin), Gwerlum a Negra (Noldorin).

Artigo escrito por Mith